Escola lombarda do século XVII
Natureza morta com pratos, flores e frutas
Óleo sobre tela, 70 x 93,5 cm – com moldura, 82 x 105 cm
A Natureza morta com pratos, flores e frutas, atribuível a um autor da escola lombarda ativo em pleno século XVII, é um excelente e mirífico exemplo daquela "pintura da realidade" que caracterizou a produção de naturezas mortas do norte da Itália. A composição articula-se num plano de apoio escuro, onde a luz, quase de ascendência caravaggesca, investiga com precisão analítica as diversas consistências materiais. À esquerda, o elemento central da pintura é constituído por uma singular série de pratos de cerâmica branca, cheios de pequenos frutos vermelhos e azeitonas, servindo de eixo visual a toda a cena. Um detalhe de extraordinário interesse crítico e documental nota-se no último prato colocado ao fundo da série, disposto frontalmente para o espectador: no centro do seu interior está pintada com subtil perícia a fachada de uma igreja, caracterizada por um perfil a empena e ordens arquitetónicas que remetem para as grandes catedrais ou basílicas do Norte da Itália, talvez uma homenagem simbólica à encomenda ou a uma cidade específica de origem. Esta requintada decoração transforma o objeto de uso num pequeno documento de identidade civil, dialogando idealmente com o vaso de flores colocado à direita, onde cravos vermelhos mosqueados emergem da escuridão com pinceladas vibrantes. No primeiro plano, a distribuição da fruta segue um ritmo sereno: os pêssegos e os damascos apresentam uma polpa aveludada que contrasta com a casca rugosa dos limões à esquerda e a compacidade plástica das peras e maçãs. Cada elemento é representado com uma volumetria sólida, onde as passagens de claro-escuro descrevem com honestidade até as pequenas imperfeições da maturação, convidando a uma reflexão silenciosa sobre a beleza da criação, típica do tema da Vanitas. O fundo castanho e profundo não é um vazio inerte, mas um espaço atmosférico que permite às cores quentes e aos brancos leitosos das maiólicas sobressair com força tátil, enquanto a rica moldura dourada com motivos foliares fecha a cena, reafirmando a importância da obra como objeto destinado à galeria de uma culta aristocracia provincial. O conjunto revela uma mão experiente no representar a "pele" das coisas, capaz de unir a observação científica da natureza a uma espiritualidade doméstica e recolhida, própria da melhor tradição pictórica lombarda do século XVII.