Há uma atmosfera 'crepitante' nesta representação da vida de Jesus, quase se percebe que, de um momento para o outro, a tensão pode rapidamente transformar-se em briga. É como se o gesto narrado no episódio bíblico da 'Lavagem dos pés' aos apóstolos, realizado pelo Messias para atenuar o descontentamento nascido da necessidade de estabelecer entre eles a maior proximidade com o mestre, não tivesse produzido nenhum resultado. Pelo contrário, estivesse alimentando ainda mais o mau humor. O movimento inquieto dos discípulos contrasta com o ambiente pacífico onde a 'Última Ceia' acabou de acontecer: um grande templo, perfeitamente simétrico, com duas colunatas centrais e dois nichos vazios em primeiro plano, a mesa ainda posta, mas agora vazia, com alguns servos conversando entre si, e ao fundo uma abertura fechada por uma cortina verde que esconde a entrada do templo. A imagem de grande potência e fluidez, derivada também da técnica utilizada – têmpera sobre papel – extremamente cursiva, nutrida de um super-homem miguelangelesco de evidente matriz 'camucciniana', como se o seu autor quisesse prestar uma homenagem declarada ao grande artista neoclássico, pode ser classificada entre as provas de um pintor quase desconhecido, resgatado do esquecimento do tempo por Liliana Barroero em 1983, e que responde ao nome de Prospero Mallerini. A têmpera tem, de fato, uma assinatura a pena no canto inferior direito, e apesar de estar parcialmente danificada, permite ainda assim a leitura das iniciais do pintor. Uma pintura que tem, no restante, características muito diversas, porque representa um *trompe l'oeil*, gênero no qual Prospero foi um especialista, passada em 2008 em um leilão da Sotheby's, apresenta também uma assinatura, mimetizada na base do *putto* que segura a vela à direita, com caracteres que eu diria sobreponíveis e fundamentais para a atribuição da nossa folha.
Desse intenso e esquecido pintor, frequentador em Roma – como testemunhado por algumas cartas conservadas no museu Thorvaldsen em Copenhague – de Pietro e Vincenzo Camuccini, mas em relação aos quais não é documentado nenhum aprendizado, conhece-se um pequeno grupo de obras espalhadas entre Úmbria, Lácio e Emília. Uma Via Crucis na igreja bolonhesa dos Ss. Gregório e Siro, realizada com a técnica da *grisaille*, resulta, no estado atual do conhecimento, a comparação mais próxima da nossa têmpera. Mais de um elemento é consonante. Nela se manifesta uma estranha desordem nos gestos e nas poses das figuras que ocupam completamente o espaço, diria de maneira 'contrapontística', e é evidente em todas as 'estações' uma inquietação extremamente vital que, para Barroero, faz pensar em Felice Giani.
A nossa carta tem, contudo, um *ductus* não exatamente encontrável nas obras até agora conhecidas de Mallerini. Prospero, na época da encomenda na igreja bolonhesa (1795), já tinha trinta e quatro anos. A obra em exame poderia, portanto, ser anterior, para uma maior adesão aos modos de Camuccini, que induz a pensar em um artista ainda em formação, faltando aquela componente que, nas telas do pintor chegado à maturidade, se torna marca estilística: uma atitude arcaizante, neoseiscentista, enxertada em uma 'estrutura' setecentista, neoclássica. Poderia, portanto, ser o mais antigo 'documento' referente a Mallerini. A nossa folha é vergada também no *recto* por sábios sinais de lápis a traço, que, apesar das consistentes lacunas, deixam intuir uma 'Pregação aos apóstolos', e imaginar um ciclo inteiro sobre a vida de Jesus.
Franco Pozzi