Século XVII, Painel com São João Evangelista
Descrição:
Século XVII
Painel com São João Evangelista
Madeira de nogueira e fundo em veludo, 65 x 40 cm
Esta requintada escultura em alto-relevo, datável do século XVII e magistralmente esculpida em madeira de nogueira, retrata São João Evangelista, capturado num momento de solene inspiração teológica. A obra, originalmente concebida com toda a provável intenção de ser parte integrante de um mobiliário litúrgico mais complexo (o painel de um púlpito, de uma tribuna ou a porta de um sacrário), apresenta-se hoje isolada e aplicada num elegante painel revestido em veludo amarelo-ocre, cujo contraste cromático exalta a pátina castanha quente e profunda da essência da madeira. A complexa iconografia do Evangelista é aqui restituída segundo os cânones da tradição contra-reformista barroca, fundindo a intimidade mística com uma vibrante representação plástica. O Santo é representado sentado, o corpo posicionado segundo uma leve torção que confere dinamismo à composição. Com a mão esquerda segura e desenrola um longo pergaminho desdobrado, símbolo do Evangelho e das suas visões apocalípticas, que desliza diagonalmente pelo busto para repousar num elaborado balaústre torneado que funciona como uma barreira prospetiva ideal. A mão direita está levantada num gesto de argumentação ou bênção, com os dedos sensivelmente flexionados para sublinhar o momento da revelação divina. Do ponto de vista formal, o escultor demonstra uma notável perícia técnica, evidente sobretudo no rico drapeado que envolve a figura. As vestes adensam-se em pregas densas nas pernas, alternando profundas zonas de sombra com zonas de luz rasante que acentuam o volume tridimensional do corpo. Os traços do rosto, emoldurado por uma cabeleira fluente e agitada que cai sobre os ombros, expressam uma serena e juvenil concentração, encimados por uma auréola circular finamente esculpida e decorada a punção com motivos geométricos radiantes. À esquerda, pousada num falso elemento arquitetónico que funciona como encosto do assento, aparece a águia, atributo tradicional do tetramorfo joanino que simboliza a capacidade do pensamento do Santo de se elevar às cumes mais altas da contemplação divina. A obra insere-se plenamente na produção artística de âmbito centro-italiano ou padano, onde o naturalismo expressivo se conjugava habilmente com as exigências devocionais da época.